{"id":161807,"date":"2026-06-22T12:47:22","date_gmt":"2026-06-22T15:47:22","guid":{"rendered":"https:\/\/cpanews.com.br\/?p=161807"},"modified":"2026-06-22T12:49:09","modified_gmt":"2026-06-22T15:49:09","slug":"opiniao-os-trilhos-do-futuro-cuiaba-entre-dois-mundos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cpanews.com.br\/?p=161807","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Os Trilhos do Futuro: Cuiab\u00e1 entre dois mundos &#8211; Suelme Fernandes"},"content":{"rendered":"<p><strong>Assisti recentemente ao cl\u00e1ssico Era uma Vez no Oeste (1968) do Diretor S\u00e9rgio Leone e n\u00e3o consegui deixar de pensar em Mato Grosso.<\/strong><\/p>\n<p>O filme n\u00e3o fala apenas de vingan\u00e7a ou de cowboys. Fala sobre transi\u00e7\u00e3o. Sobre o momento em que um mundo antigo percebe, tarde demais, que ser\u00e1 substitu\u00eddo por outro.<\/p>\n<p>No enredo, ambientado no s\u00e9c. XIX, a chegada da ferrovia muda tudo. Os homens armados \u2014 cowboys, coron\u00e9is e aventureiros \u2014 entendem que n\u00e3o ser\u00e3o mais os protagonistas da hist\u00f3ria. O futuro pertencer\u00e1 aos que compreenderem a nova l\u00f3gica econ\u00f4mica das ferrovias.<\/p>\n<p>A frase mais importante do filme talvez nem seja dita explicitamente: quem controla os trilhos controla o futuro.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de cem anos, Mato Grosso viveu algo semelhante.<\/p>\n<p>A chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em 1914, deslocou o eixo econ\u00f4mico do antigo Estado. Cuiab\u00e1 continuou sendo a capital pol\u00edtica, mas Campo Grande, conectada aos trilhos e a S\u00e3o Paulo, tornou-se a capital econ\u00f4mica do sul.<\/p>\n<p>Era o velho mundo cedendo espa\u00e7o ao novo, causando uma cis\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, a hist\u00f3ria parece rimar.<\/p>\n<p>Passados mais de cem anos, a expans\u00e3o ferrovi\u00e1ria em dire\u00e7\u00e3o ao norte, tendo Lucas do Rio Verde como s\u00edmbolo, representa uma nova mudan\u00e7a de era.<\/p>\n<p>O centro din\u00e2mico da economia j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 na minera\u00e7\u00e3o, no funcionalismo ou no com\u00e9rcio tradicional. Est\u00e1 na log\u00edstica, na agroind\u00fastria, na tecnologia aplicada ao campo e na inser\u00e7\u00e3o global.<\/p>\n<p>Mais uma vez, Cuiab\u00e1 encontra-se diante de um dilema. Mas, dessa vez, fazendo parte dele.<\/p>\n<p>No filme, muitos personagens acreditam que o passado continuar\u00e1. N\u00e3o continua. Outros lutam contra a ferrovia. Perdem.<\/p>\n<p>Os que prosperam s\u00e3o aqueles que entendem que a modernidade n\u00e3o pode ser detida; pode apenas ser aproveitada.<\/p>\n<p>Esse talvez seja o maior ensinamento para Cuiab\u00e1.<\/p>\n<p>A capital n\u00e3o precisa disputar com Lucas do Rio Verde a produ\u00e7\u00e3o de soja, assim como Amsterdam n\u00e3o precisou ser Rotterdam e Washington n\u00e3o precisou ser Detroit.<\/p>\n<p>As cidades vencedoras n\u00e3o tentam ser aquilo que j\u00e1 n\u00e3o podem ser.<\/p>\n<p>Elas descobrem um novo papel.<\/p>\n<p>Cuiab\u00e1 possui universidades, hospitais, centros de decis\u00e3o pol\u00edtica, servi\u00e7os especializados e uma identidade cultural \u00fanica no Centro-Oeste. Pode tornar-se o grande centro de intelig\u00eancia, inova\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os do agroneg\u00f3cio brasileiro.<\/p>\n<p>Mas isso exige abandonar a nostalgia.<\/p>\n<p>Porque a nostalgia \u00e9 sedutora.<\/p>\n<p>Ela faz acreditar que a import\u00e2ncia adquirida no passado, somente por isso, garante relev\u00e2ncia no futuro.<\/p>\n<p>N\u00e3o garante.<\/p>\n<p>Em Era Uma Vez no Oeste, o som do trem anuncia o nascimento de um novo mundo.<\/p>\n<p>Em Mato Grosso, o apito dos novos trilhos tamb\u00e9m j\u00e1 pode ser ouvido.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se a mudan\u00e7a vir\u00e1.<\/p>\n<p>Ela j\u00e1 chegou. Ontem 20\/07\/2026 foi inaugurado o primeiro trecho da ferrovia at\u00e9 Dom Aquino.<\/p>\n<p>Na cena final do filme cl\u00e1ssico , Jill, personagem de Claudia Cardinale, distribui \u00e1gua aos trabalhadores da ferrovia, enquanto Harmonica, personagem de Charles Bronson, se afasta montado a cavalo at\u00e9 desaparecer no horizonte.<\/p>\n<p>\u00c9 a despedida do velho Oeste e a chegada de um novo tempo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 quem compreender\u00e1 primeiro que o futuro pertence menos aos herdeiros do passado e mais \u00e0queles capazes de construir seu lugar no novo.<\/p>\n<p>Cuiab\u00e1 pode ser algo mais do que uma plataforma de embarque e desembarque de bens comprados no litoral.<\/p>\n<p>Os trilhos chegar\u00e3o.<\/p>\n<p>O que ainda n\u00e3o sabemos \u00e9 se Cuiab\u00e1 ter\u00e1 um novo rumo depois que os trilhos chegarem.<\/p>\n<p><strong>*SUELME FERNANDES<\/strong>\u00a0<em>\u00e9 Professor, Historiador do IHGMT e Gestor da Empaer.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assisti recentemente ao cl\u00e1ssico Era uma Vez no Oeste (1968) do Diretor S\u00e9rgio Leone e n\u00e3o consegui deixar de pensar em Mato Grosso. 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